Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: aplicar ou não adesivo após o silano? – Parte III

Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: aplicar ou não adesivo após o silano? – Parte III

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De acordo com a literatura, a aplicação de adesivo na superfície da cerâmica após o silano ainda é um procedimento controverso. 

De acordo com os artigos publicados nas edições anteriores da PróteseNews (Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas – Parte I e Parte II)1-2, o protocolo convencional para a cimentação adesiva de cerâmicas vítreas é o condicionamento com ácido hidrofluorídrico na concentração de 5% seguido da aplicação de silano de um frasco. Após a silanização, os fabricantes recomendam a aplicação de adesivos com características hidrofóbicas nas restaurações cerâmicas, como uma etapa opcional ou parte do protocolo de cimentação3. Os sistemas adesivos apresentam em sua composição grupos hidrofílicos, que se ligam aos substratos dentários, e grupos hidrofóbicos, que interagem e copolimerizam com os cimentos resinosos, além de iniciadores, inibidores, solventes e, em alguns casos, cargas inorgânicas4.

De maneira simplificada, os adesivos podem ser classificados em convencionais, autocondicionantes e universais5. Os adesivos convencionais são aqueles que necessitam do condicionamento prévio com ácido fosfórico 35-37%, podendo ser de três passos, os que apresentam primer e adesivo em frascos separados, ou de dois passos, em que o primer e o adesivo estão dispostos em um mesmo frasco. Já os adesivos autocondicionantes podem ser de dois frascos, um contendo o primer ácido e outro contendo o adesivo; de um frasco contendo ácido/primer/adesivo (all-in-one); ou de dois frascos contendo ácido/primer/adesivo que necessitam ser misturados previamente à aplicação. Geralmente, esses são específicos para um determinado tipo de cimento resinoso.

Por fim, os sistemas adesivos universais ou multimode são aqueles que apresentam em um único frasco o ácido/primer/adesivo e podem ser utilizados em abordagens de condicionamento ácido total (esmalte e dentina) ou seletivo do esmalte, ou no modo autocondicionante6. Os tipos de adesivos e as marcas comerciais estão apresentados na Tabela 1, de acordo com a classificação.

Embora a maioria dos adesivos contenha componentes semelhantes, eles podem diferir entre si considerando a quantidade proporcional de grupos hidrofílicos e hidrofóbicos, a distribuição em um mesmo frasco ou em frascos separados, e a adição de outros componentes, como silanos e monômeros ácidos fosfatados (10-MDP)5-6. Comercialmente, uma diversidade de sistemas adesivos e cimentos resinosos está disponível no mercado, os quais podem ser utilizados em diferentes protocolos de cimentação adesiva. Por isso, entender características, modo de utilização e indicações dos sistemas adesivos permite que seja realizada a escolha correta do sistema de cimentação4. Dessa forma, o objetivo deste estudo é discutir, baseado na literatura, se a aplicação de sistemas adesivos em peças cerâmicas é uma etapa necessária e relevante dentro do protocolo de tratamento de superfície das cerâmicas vítreas.

Metodologia

Para o levantamento bibliográfico, foi realizada a busca eletrônica na base de dados PubMed com os seguintes descritores: adhesive system AND glass ceramic, adhesive AND bond AND glass ceramic. A busca manual nas referências também foi realizada. Foram encontrados 395 artigos, sendo selecionados 15 artigos relevantes para o tema em questão.

Resultados e discussão

De acordo com a literatura, a aplicação de adesivo na superfície da cerâmica após o silano ainda é um procedimento controverso. Existem duas possibilidades do adesivo interagir com o cimento resinoso: quando ele é aplicado sobre o substrato dentário ou quando o adesivo é aplicado na peça cerâmica após a silanização. No que diz respeito à aplicação nas restaurações cerâmicas, esse procedimento ainda é utilizado por alguns clínicos e dispensado por outros, variando também o tipo de sistema de cimentação utilizado para cada caso7. Segundo a literatura, a aplicação de um adesivo hidrofóbico (apenas o bond) após o silano é o mais indicado, uma vez que permite maior interação ao cimento resinoso devido à menor viscosidade, em comparação com o cimento resinoso, e menor degradação hidrolítica3.

No que diz respeito à aplicação do adesivo na cerâmica, alguns autores relatam que esse procedimento pode melhorar a resistência de união aos cimentos resinosos e aumentar a resistência mecânica da cerâmica8-10. Quanto à adesão, alguns estudos relatam que, pelo fato do adesivo aumentar a molhabilidade do cimento resinoso com a superfície da cerâmica8-9, existe uma melhora da adesão ao cimento. Já outros autores relatam que esse passo não interfere significativamente na adesão3,11, podendo até trazer prejuízos em longo prazo12, pois, quando essas interfaces (silano/adesivo/cimento) são submetidas ao envelhecimento em água, ocorre maior degradação hidrolítica da camada de sistema adesivo, decorrente da absorção de água pelo adesivo, comprometendo a adesão3. Já quando o cimento resinoso é utilizado após a aplicação do silano, a interface adesiva é mais resistente à degradação hidrolítica, uma vez que os silanos apesentam menor degradação em água13.

Segundo um estudo14, os sistemas adesivos apresentam monômeros e solventes hidrofílicos em sua composição, o que pode favorecer a sorção de água na interface adesiva, sendo mais suscetíveis à degradação hidrolítica, o que não ocorre nos grupos tratados unicamente com silano devido às características hidrofóbicas desta interface. Esses autores investigaram a aplicação de silano e adesivo em uma cerâmica de dissilicato de lítio, e demonstraram que, após 24 horas de armazenamento em água, a associação das etapas separadas da aplicação de silano e adesivo resultou em maiores valores de resistência de união, quando comparado a grupos experimentais tratados unicamente com silano ou com adesivos universais contendo silano em sua composição. Em contrapartida, nesse mesmo estudo, nos grupos em que o silano foi usado em associação com um sistema adesivo, a adesão ao cimento resinoso foi significativamente reduzida após 12 meses de envelhecimento em água.

Assim, os autores recomendam apenas a etapa de aplicação do silano para maior adesão do cimento na superfície da cerâmica e, consequentemente, maior longevidade da restauração.

Além do aspecto relacionado à adesão, alguns estudos relatam que a aplicação do adesivo após o silano pode aumentar a resistência mecânica das cerâmicas vítreas10,15. Autores15 sugerem que o aumento dessa resistência está relacionado com os componentes resinosos do adesivo, que provocariam o fortalecimento na cerâmica por meio de uma modificação na produção das falhas, uma vez que preenchem as fissuras e alterações superficiais que foram produzidas anteriormente pelo ácido hidrofluorídrico. Segundo os autores, o adesivo escoa pelas irregularidades criadas pelo condicionamento e possibilita que os cimentos resinosos, mesmo os mais viscosos, interajam adequadamente com a cerâmica, possibilitando que as tensões sejam concentradas na camada de cimento, diminuindo a transmissão de tensão à cerâmica. Em contrapartida, outros autores investigaram o efeito da aplicação de silano, adesivo (bond) e a combinação na resistência à flexão de uma porcelana feldspática, e relataram que não foi observado reforço significativo da cerâmica aplicando-se adesivo após a silanzação16.

Corroborando com esses achados, outro estudo também investigou a influência da aplicação ou não de adesivos combinados a cimentos resinosos com diferentes conteúdos inorgânicos na resistência à flexão biaxial de porcelana feldspática17.

De acordo com esse estudo, a utilização de uma camada de adesivo reduziu a resistência mecânica da cerâmica em alguns grupos e, de maneira geral, não teve um efeito positivo na resistência da cerâmica. Os autores também relatam que, quando o adesivo é usado, as fraturas tendem a começar na camada do adesivo e atingem o agente de cimentação17, o que pode diminuir tanto a resistência mecânica como a adesiva da restauração.

Uma pesquisa recente desenvolvida pelo nosso grupo de pesquisa em Cerâmicas do Departamento de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) também avaliou o efeito da aplicação do adesivo após a silanização na resistência à flexão de uma cerâmica de dissilicato de lítio e revelou que a aplicação do adesivo após o silano não melhora a resistência mecânica da cerâmica vítrea18.

De maneira geral, de acordo com a literatura, a maioria dos estudos sugere que a aplicação do adesivo na superfície silanizada de cerâmicas vítreas reduz a resistência de união em longo prazo3,11-12 e não oferece vantagens significativas no que diz respeito à resistência mecânica da restauração16-18.

Além disso, ainda há pouca evidência científica avaliando essas condições, principalmente com pesquisas clínicas, para que se possa constatar os resultados apresentados em pesquisas laboratoriais.

Conclusão

Baseando-se na revisão da literatura realizada, parece lícito concluir que:

  1. A aplicação do adesivo após a silanização não melhora a resistência adesiva e nem a resistência mecânica das cerâmicas vítreas;
  2. O condicionamento com ácido hidrofluorídrico a 5%, seguido apenas da aplicação do silano isolado, parece ser o protocolo mais indicado para tratamento de superfície das cerâmicas vítreas.

Referências

  1. Vila-Nova TEL, Silva NR, Moura DMD, Araújo GM, Miranda LM, Carvalho IHG et al. Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: condicionamento e limpeza pós-condicionamento – parte I. PróteseNews 2019;6(5):587-90.
  2. Moura DMD, Carvalho IHG, Silva SEG Araújo GM, Vila-Nova TEL, Silva NR et al. Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: silanização – parte II. PróteseNews 2019;6(6):705-8.
  3. Passos SP, Valandro LF, Amaral R, Ozcan M, Bottino MA, Kimpara ET. Does adhesive resin application contribute to resin bond durability on etched and silanized feldspathic ceramic? J Adhes Dent 2008;10(6):455-60.
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  6. Perdigão J, Loguercio AD. Universal or multi-mode adhesives: why and how? The Journal of Adhesive Dentistry 2014;16(2).
  7. Matinlinna JP, Lassila LV, Ozcan M, Yli-Urpo A, Vallittu PK. An introduction to silanes and their clinical applications in dentistry. Int J Prosthodont 2004;17(2):155-64.
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  9. Reich SM, Wichmann M, Frankenberger R, Zajc D. Eff ect of surface treatment on the shear bond strength of three resin cements to a machinable feldspatic ceramic. J Biomed Mater Res B Appl Biomater 2005;74(2):740-6.
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  11. Peumans M, Hikita K, De Munck J, Van Landuyt K, Poitevin A, Lambrechts P et al. Eff ects of ceramic surface treatments on the bond strength of an adhesive luting agent to CAD-CAM ceramic. J Dent 2007;35:282-8.
  12. El Zohairy AA, De Gee AJ, Hassan FM, Feilzer AJ. The eff ect of adhesives with various degrees of hydrophilicity on resin ceramic bond durability. Dent Mater 2004;20:778-87.
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  18. Silva SEG, Araújo GMA, Souza KB, Moura DMD, Aurélio IA, May LG et al. Biaxial flexure strength, Physicochemical and morphological characterization of to lithium disilicate ceramic after different etching time and silane or adhesive. Submitted to The International Journal of Prosthodontics.

Por

Gabriela Monteiro de Araújo
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-9393-6259.

Larissa Mendonça de Miranda
Mestranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-8503-7595.

Karina Barbosa Souza
Graduanda do curso de Odontologia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0001-7117-8250.

Taciana Emília Leite Vila-Nova
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-2679-7316.

Nathalia Ramos da Silva
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-4153-3279.

Dayanne Monielle Duarte Moura
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-2111-5205.

Isabelle Helena Gurgel de Carvalho
Mestra em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-1744-8181.

Sarah Emille Gomes da Silva
Graduanda do curso de Odontologia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0001-9987-088X.

Rodrigo Othávio de Assunção e Souza
Professor adjunto da disciplina de Prótese Dentária – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-0856-7178.