Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: silanização – Parte II

Cimentação adesiva em cerâmicas vítreas: silanização – Parte II

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Silanização:  trabalho busca evidenciar protocolos clínicos mais eficazes de utilização dos silanos nas cerâmicas com alto conteúdo vítreo.

O protocolo de adesão convencionalmente estabelecido para cerâmicas vítreas é o condicionamento com ácido hidrofluorídrico (HF) seguido da aplicação de um agente de união silano1. Em geral, a composição dos silanos mais utilizados em Odontologia consiste em moléculas de MPS (3-metacriloxipropiltrimetoxisilano), ácido acético, etanol e água1. Os silanos são moléculas bifuncionais que contêm dois grupos: um inorgânico, que reage com a sílica na superfície da cerâmica por uma reação de condensação; e um orgânico, que se liga quimicamente a metacrilatos resinosos presentes no cimento resinoso2. Essa reação de condensação libera água como subproduto, o que torna a superfície da cerâmica úmida. Por este motivo, após a aplicação da camada de silano, recomenda-se secar a superfície3.

De maneira simplificada, quando o silano entra em contato com a superfície da cerâmica, penetra nas irregularidades provocadas pelo ácido HF, formando uma monocamada, impermeabilizando a superfície, tornando-a hidrofóbica e favorecendo a interação química com o cimento resinoso3-4.

Em uma superfície corretamente silanizada, é possível observar a formação dessa camada impermeável (Figura 1), o que clinicamente permite que, mesmo após a aplicação do silano, restaurações possam ser lavadas e secas com jatos de água e ar3. Para materiais à base de sílica, como as cerâmicas vítreas, eles promovem uma adesão muito eficaz. Entretanto, em materiais como cerâmicas de zircônia e alumina ou metais, a adesão exclusivamente por meio do silano não é satisfatória3,5.

Figura 1 – Molhabilidade da superfície de cerâmica de dissilicato de lítio após o condicionamento com HF seguido da silanização (A) e sem aplicação do silano (B), para avaliar o ângulo de contato do líquido com a cerâmica. Em A, observar que, após a aplicação do silano, a superfície da cerâmica ficou hidrofóbica/maior ângulo de contato (α0 > β0), diferente de B, em que a gota de água se espalhou totalmente sobre a superfície, que se mostra mais hidrofílica.

 

Alguns fatores influenciam na eficácia do silano, como: forma de armazenamento, tempo de uso do produto após sua abertura, aquecimento com ar quente e silanos contidos em alguns adesivos universais ou com primer autocondicionante (Monobond Etch & Prime)3. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é, por meio de uma revisão da literatura, evidenciar os protocolos clínicos mais eficazes de utilização dos silanos nas cerâmicas com alto conteúdo vítreo.

Metodologia

Uma busca eletrônica na base de dados PubMed foi realizada utilizando os descritores “glass ceramic and silanization”, “glass ceramic and heat silane”, “silane pre hydrolyzed” e “monobondetch prime”. A busca manual nas referências também foi realizada. Foram encontrados 85 artigos, sendo selecionados 22 de boa qualidade metodológica e relevantes para o tema em questão. Os tipos de silanos, sua composição química e o modo de aplicação estão apresentados na Tabela 1.

TABELA 1 – NOME COMERCIAL DO SILANO, FABRICANTE, COMPOSIÇÃO QUÍMICA E MODO DE APLICAÇÃO, DE ACORDO COM A RECOMENDAÇÃO DO FABRICANTE PARA CIMENTAÇÃO DE RESTAURAÇÕES INDIRETAS DE CERÂMICAS VÍTREAS

*Seguir o tempo de condicionamento de acordo com a recomendação do fabricante de cada cerâmica.

 

Resultados e Discussão

De acordo com a literatura, dois tipos de silanos podem ser encontrados: de um frasco (pré-hidrolisado) ou dois frascos (silano e ácido separados). Os silanos de um frasco têm vida útil relativamente curta e apresentam como solvente a água6.

Com o tempo, a solução pode parecer turva após a abertura, perdendo sua estabilidade química e sua eficiência, não devendo mais ser utilizada6.

Para aumentar a vida útil do material, foram introduzidos na Odontologia os sistemas de dois frascos, nos quais as duas soluções (ácido e silano) são misturadas para permitir a hidrólise do silano a um pH baixo antes do uso6. Os estudos relatam que, apesar dos silanos de dois frascos possuírem maior vida útil, eles oferecem menor resistência de união ao cimento resinoso. Para alguns autores7, isto pode ser explicado pelo fato de que, em temperatura ambiente, a manipulação dos componentes em frascos separados pode alterar a reação. Já os silanos de um frasco têm reação mais completa em temperatura ambiente, eliminando totalmente o solvente residual e melhorando a força de adesão6. Dessa forma, a literatura recomenda que seja utilizada a opção de um frasco na rotina clínica.

No que diz respeito ao aquecimento do silano, a literatura sugere que esse procedimento ajuda na evaporação de solventes como água, álcool e outros produtos, além de completar a reação de condensação silano-sílica, tornando a superfície mais hidrofóbica e, consequentemente, melhorando a adesão8.

Alguns estudos investigaram o aquecimento do silano a temperaturas de 50ºC, 60ºC ou 100ºC9-11 utilizando ar quente ou fornos calibrados, comparando a grupos de silanos não aquecidos.

A maioria dos estudos9-12 relata que esse procedimento não aumenta significativamente a adesão e, em alguns casos, pode inclusive diminuir a resistência de união, o que varia conforme o tipo de silano, sendo mais uma etapa clínica sem resultados promissores.

Outro estudo11 relata que alguns silanos atuais, com a presença de um monômero fosfatado de MDP (10-metacriloiloxidecil di-hidrogênio fosfato) ou soluções à base de água, podem ser ainda mais afetados pelo aquecimento, principalmente em altas temperaturas, podendo a camada de silano ser completamente removida após o aquecimento. Assim, apesar do aquecimento ser ainda um procedimento controverso, não tem sido indicado para restaurações cerâmicas por não melhorar significativamente a adesão9-13. Além disso, estudos clínicos demonstram altas taxas de longevidade de restaurações vítreas cimentadas seguindo o protocolo convencional de condicionamento com ácido fluorídrico e aplicação do silano, sem o seu aquecimento14. Os fabricantes recomendam que, após a aplicação do silano, aguarde-se um período para sua ação e, em seguida, jatos de ar em temperatura ambiente sejam aplicados por um determinado tempo. Esse protocolo de tempo varia de acordo com cada tipo de silano e, por isso, é importante ler a bula do fabricante e seguir as instruções6.

Outra forma de apresentação é o silano incorporado aos adesivos universais15-16. Dois adesivos universais são comumente conhecidos por conter silano em sua composição: Single Bond Universal (3M Espe) e Clearfil Universal Bond (Kuraray). Esses adesivos ainda contêm um monômero de MDP (que atua como primer para zircônia e metal) e, por este motivo, são também conhecidos como “adesivos universais multimode” – o que permite serem utilizados como adesivos autocondicionantes para dentina ou como silano para cerâmicas vítreas e primer para cerâmicas cristalinas17.

No entanto, apesar da facilidade clínica, diversos estudos que compararam silanos convencionais aos adesivos universais com silanos relatam que uma melhor adesão foi encontrada quando o silano foi utilizado isoladamente15-16,18-19. Os estudos justifi cam que a mistura de componentes (silano, adesivo e MDP) em um único frasco pode também afetar a união do silano ao vidro das cerâmicas e difi cultar a evaporação da água, que é um subproduto da reação do silano, prejudicando a adesão16.

Nesse sentido, usar apenas o silano convencional de um frasco tem sido recomendado e mostra uma adesão mais durável do que usar um adesivo universal com silano na cerâmica15-16,18-20.

Como já discutido na revisão da literatura sobre a cimentação adesiva de cerâmicas vítreas (parte I), publicada em edição anterior da PróteseNews21, outra forma de tratamento de superfície para as cerâmicas vítreas é utilizando o Monobond Etch & Prime (MEP). Esse produto contém em sua composição um ácido (amônio polifluoreto) e um silano (metacrilato de trimetoxissililpropilo) em um único frasco, e, de acordo com o fabricante e estudos recentes, a aplicação em cerâmicas vítreas substitui as etapas de condicionamento com HF e a aplicação de silano separadamente24-26. Segundo os estudos, o MEP produz uma superfície quimicamente ativa, rica em sílica similar àquela criada pelo condicionamento com ácido HF. Essa camada de silano uniforme é menos propensa à degradação em água e mais estável ao longo dos anos15. Nesse sentido, de acordo com a literatura, a utilização do MEP oferece uma adesão estável, similar ao HF + silano e com menor degradação da estrutura da cerâmica, sendo uma alternativa promissora e simplificada tanto para o condicionamento como para a silanização das vitrocerâmicas. Mas, uma maior evidência clínica é importante para avaliar o desempenho a longo prazo desse material.

Conclusão

Diante das evidências, pôde-se concluir que:

  1. É recomendado utilizar silanos de um frasco por promoverem uma adesão eficiente e durável;
  2. O aquecimento do silano após sua aplicação não melhora significativamente a adesão;
  3. O silano convencional aplicado isoladamente permanece como indicação para o tratamento das cerâmicas vítreas, já que o silano contido em adesivos universais promove menor adesão;
  4. O Monobond Etch & Prime tem se mostrado uma opção promissora e oferece adesão estável, no entanto mais estudos clínicos ainda são necessários.

Referências

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Dayanne Monielle Duarte Moura
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-2111-5205.

Isabelle Helena Gurgel de Carvalho
Mestra em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-1744-8181.

Sarah Emille Gomes da Silva
Graduanda do curso de Odontologia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0001-9987-088X.

Gabriela Monteiro de Araújo
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-9393-6259.

Taciana Emília Leite Vila-Nova
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-2679-7316.

Nathalia Ramos da Silva
Doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-4153-3279.

Karina Barbosa Souza
Graduanda do curso de Odontologia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0001-7117-8250.

Larissa Mendonça de Miranda
Mestranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0002-8503-7595.

Rodrigo Othávio de Assunção e Souza
Professor adjunto da disciplina de Prótese Dentária – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Orcid: 0000-0003-0856-7178.