A Odontologia “muito” minimamente invasiva dos laminados cerâmicos

A Odontologia “muito” minimamente invasiva dos laminados cerâmicos

Compartilhar

Renata Marques de Melo cita estudo que demonstrou taxa de sobrevivência de 99,6% sobre 265 restaurações em dissilicato de lítio cimentadas em preparos com término em lâmina de faca.

A Odontologia minimamente invasiva, no campo das restaurações protéticas, contribuiu para o avanço no uso de laminados cerâmicos que, se bem aderidos à estrutura dentária, distribuem adequadamente as tensões, devolvem a função mastigatória e proporcionam excelente estética¹. Neste conceito restaurador, enfatiza-se a preservação dos tecidos dentários sadios, sobretudo do esmalte, que é o substrato onde se obtém melhor adesão e a rigidez necessária para reduzir deformações e possíveis falhas do laminado, como fratura e descolamento2.

A despeito do conservadorismo na remoção do esmalte, os preparos dentários para restaurações cerâmicas no terço cervical, principalmente nos dentes anteriores, são bem definidos e podem ter a forma de ombro, chanfro ou chanfrete. Isso significa um desgaste considerável do dente no terço cervical, podendo trazer como consequências: menor adesão, linha de cimentação perceptível nos casos supragengivais e/ou inflamação da gengiva e migração apical nos casos subgengivais.

Contrastando com os tradicionais términos, conhecidos por “horizontais”, estão os términos “verticais”, como a lâmina de faca. Alguns autores defendem ainda os preparos sem término cervical, que seguem o padrão “Biologically Oriented Preparation Technique”, ou BOPT3. Dessa forma, a diferença fundamental entre os preparos horizontais e verticais é que os primeiros são mais definidos, enquanto no outro tipo a margem do preparo baseia-se na informação dos tecidos moles, isto é, o perfil de emergência da restauração segue o perfil da gengiva4.

Neste sentido, estes preparos são mais conservadores do que os horizontais. Embora não sejam novos, pois já eram indicados em casos de dentes comprometidos periodontalmente e em casos específicos, como os de dentes conoides4-5, os preparos verticais para laminados cerâmicos só passaram a ser explorados recentemente, com pouca evidência científica sobre seu desempenho.

Dos vários aspectos que poderiam ser discutidos, como a complexidade da técnica ou a remoção do excesso de cimento em margens subgengivais, ressalta-se a durabilidade das restaurações feitas sobre esses preparos. Em um único estudo6 retrospectivo com um pouco mais de quatro anos, demonstrou-se uma taxa de sobrevivência de 99,6% sobre 265 restaurações em dissilicato de lítio cimentadas em preparos com término em lâmina de faca, com apenas uma falha registrada. O insucesso do caso ocorreu exatamente por fratura do material cerâmico.

Embora os autores tenham enfatizado a ideia de que o dissilicato é o material adequado para esse fim, por ser mais resistente do que os feldspáticos, e que o evento de fratura foi consequência de um trauma, a restauração falhou no terço cervical. Portanto, reitera-se que, apesar da evolução da Odontologia adesiva e do surgimento de cerâmicas mais resistentes, margens muito finas podem limitar a durabilidade dessas reconstruções, mesmo que feitas sobre um bom suporte de esmalte.

Evidentemente, a falha de uma única restauração não tem muito significado na validação do uso dos preparos verticais, mas, como em todas as outras técnicas, impõe a necessidade urgente de estudos clínicos randomizados. Tudo isso com o objetivo de alcançar uma maior conservação do substrato dentário, funcionalidade e longevidade das restaurações cerâmicas, assim como preconiza a Odontologia minimamente invasiva.

Referências

  1. Magne P, Douglas WH. Additive contour of porcelain veneers: a key element in enamel preservation, adhesion, and esthetics for aging dentition. J Adhes Dent 1999;1(1):81-92.
  2. McLaren EA. Porcelain veneer preparations: to prep or not to prep. Inside Dentistry 2006. p.76-9.
  3. Loi I, Di Felice A. Biologically oriented preparation technique (BOPT): a new approach for prosthetic restoration of periodontically healthy teeth. Eur J Esthet Dent 2013;8(1):10-23.
  4. Peris H, Godoy L, Cogolludo PG, Ferreiroa A. Ceramic veneers on central incisors without fi nish line using bopt in a case with gingival asymmetry. J Clin Exp Dent 2019;11(6):577-81.
  5. Agustín-Panadero R, Ausina-Escrihuela D, Fernández-Estevan L, Román-Rodríguez JL, Faus-López J, Solá-Ruíz MF. Dental-gingival remodeling with BOPT no-prep veneers. J Clin Exp Dent 2017;9(12):1496-500.
  6. Imburgia M, Cortellini D, Valenti M. Minimally invasive vertical preparation design for ceramic veneers: a multicenter retrospective follow-up clinical study of 265 lithium disilicate veneers. Int J Esthet Dent 2019;14(3):286-98.

Renata Marques de Melo
Renata Marques de Melo
Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.
Orcid: 0000-0003-0752-6294.